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Ótima entrevista do Alexandre Inagaki para a Nós Comunicação

Alexandre Inagaki: ‘Vivemos uma transição e, por isso, hesito em afirmar que o modelo gratuito na web será hegemônico’

 

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Alexandre Inagaki é um dos 37 participantes de ENTER, antologia digital criada pela professora Heloisa Buarque de Holanda para disponibilizar textos, áudios e vídeos na internet. Além disso, o jornalista é diretor de Criação e Conteúdo da Agência Polvora e consultor de comunicação em mídias sociais, mantendo ainda, desde 2002, o blog 'Pensar enlouquece, pense nisso'.

Inagaki conversou com o Nós da Comunicação sobre o ENTER e outros assuntos, como direitos autorais na web, as novas ferramentas de comunicação e se os blogs conseguem acompanhar a avalanche tecnológica. Confira a conversa agora.

Nós da Comunicação – Você é um dos 37 participantes de ‘ENTER – Antologia digital’, organizado pela professora Heloisa Buarque de Holanda. Fale um pouco do projeto, do convite para integrá-lo e de como se sente sendo um dos participantes.
Alexandre Inagaki –
Recebi um e-mail da Heloisa Buarque em abril, dizendo que estava fazendo uma seleção de escritores com blogs ou atividades na internet, e me convidando para integrar essa antologia que reuniria textos, áudios e vídeos em um site. Fiquei mais do que honrado; a primeira vez que ouvi falar no nome da Heloisa havia sido em meus tempos de colegial, quando ficava horas fuçando a biblioteca do Colégio Bandeirantes e garimpei uma antologia de poetas dos anos 70 organizada por ela. Graças à curadoria de Heloisa, li pela primeira vez versos de autores como Cacaso e Ana Cristina César e tomei conhecimento da chamada “geração mimeógrafo”, inspiração direta para muitos dos projetos que viria a desenvolver anos depois na internet, como o SpamZine, fanzine distribuído por e-mail que editei por quase três anos, e o portal InterNey Blogs, no ar desde fevereiro de 2007.

Assim, como não poderia deixar de ser, recebi o convite para participar do ENTER com orgulho e prazer. Sentimentos que foram consolidados quando soube de outros nomes que integravam a antologia, como André Dahmer, Joca Terron, Ciça Giannetti, Cardoso, Bruna Beber, Arnaldo Branco, Daniel Pellizzari e muitos outros.

Nós da Comunicação – Na apresentação do site, Heloisa Buarque justifica a escolha do título da antologia. Como você definiria a expressão/tecla ENTER?
A. I. –
ENTER é uma tecla de acesso, a ser clicada para submeter um formulário de dados ou realizar uma pesquisa no Google. Ou seja, uma tecla que serve para o envio de informações que remeterão o usuário a outro universo de novas informações a serem processadas e retrabalhadas. É uma porta de entrada, um convite tácito para a descoberta de novos caminhos, um aviso implícito: “entre sem bater”.

Nós da Comunicação – Ainda na apresentação da antologia, Heloisa afirma: “Não existe tal coisa como uma literatura de internet. Existe, sim, um novo ambiente, com um horizonte de possibilidades de expressão inéditas, ainda com frágeis limites de governança, que afeta diretamente e de forma irreversível nossa forma de pensar, criar, ver, significar”. Como você avalia essa questão? É possível fazer um paralelo com a “comunicação de internet” ou comunicação digital?
A. I –
Internet é uma folha de papel em branco quase infinita. Ou seja, é uma interface como outra qualquer, apenas com alguns recursos a mais. Para mim, falar em “literatura de internet” seria, pois, como falar em “literatura de papel”; não faz sentido. Afinal de contas, do mesmo modo que livros servem para publicar receitas de pavês, confissões umbigais e manuais de liquidificador, o universo virtual também abriga de tudo, desde literatices em Power Point até experimentações mallarmísticas.

A literatura contemporânea espelha o mundo em que vivemos: pós-utópico, multifacetado, fragmentado. Não é mais possível afirmar peremptoriamente que escritores pertencem a um único movimento literário com características coesas, mas isso já acontecia desde as pós-modernices dos anos 80.

Se há um paralelo com a “comunicação de internet”,  eu diria que está basicamente no fato de que escritores refletem em seus textos o universo que os cerca, seja tratando de temas cotidianos como reality shows ou a inclusão de seu nome no SPC ou Serasa, seja reproduzindo em seus textos a linguagem miguxês ou a concisão do Twitter, seja expressando as sensações de testemunhar tempos em que somos bombardeados diariamente por um dilúvio de informações a que temos alcance por meio de sites, blogs e centenas de canais de TV por assinatura.

Nós da Comunicação – Na semana retrasada, em um fórum de comunicação digital promovido pela Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), Marcelo Lobianco, diretor comercial do IG, afirmou que a indústria de comunicação passa hoje por um processo de transição similar ao que passaram há algum tempo o sistema bancário e a música. Como você, um ex-bancário, poeta, jornalista e consultor de comunicação em mídias sociais, avalia essa afirmação?
A. I. –
É fato. Os avanços tecnológicos farão com que uma profissão como a de caixa de banco torne-se em breve tão obsoleta quanto o ofício de um datilógrafo ou um amolador de facas. Do mesmo modo, gravadoras estão sendo obrigadas a rever seu modelo de negócios com a proliferação de arquivos MP3. Igualmente significativo foi o anúncio recente da banda Radiohead de que não pretende mais lançar álbuns, e sim disponibilizar músicas avulsas, a serem lançadas assim que estiverem prontas. Os paradigmas tradicionais não param de mudar, e a transição tornou-se permanente.

Faço, porém, uma ressalva: embora acessemos diretamente nossas contas bancárias por meio de home bankings e baixemos músicas dispensando mídias físicas e a intervenção de gravadoras, não creio que ainda podemos dispensar totalmente a figura dos intermediários. Os “gatekeepers” desses novos tempos são os Trending Topics do Twitter, os amigos de quem conferimos os itens compartilhados no Google Reader, os consultores de sua conta de home broker, as recomendações de bandas feitas pelo Last.FM.

Nós da Comunicação – Você mantém o blog 'Pensar enlouquece, pense nisso' desde 2002. Muitas foram as transformações desde então com o crescimento das mídias sociais. Como avalia o atual estágio da blogosfera nesse cenário, em meio a Twitter, Facebook etc.?
A. I. –
Escrevi recentemente um post intitulado ‘O blog está morto, mas juro que não fui eu’, em que cito a seguinte declaração de Steve Rubel: “O formato atual dos blogs precisa de um ‘reboot’. Creio que pessoas não têm tempo para ler tanto quanto costumavam ter. Além disso, blogs precisam estar conectados a hubs de redes sociais. O Posterous me permite fazer isso de várias maneiras, até mesmo permitindo que meus leitores enviem seus comentários através de Facebook, Twitter, Backtype e Friendfeed”. É fato: o advento das mídias sociais fez com que muita gente de peso trocasse seus blogs pelo Twitter ou por ferramentas de publicação mais práticas e descomplicadas, como o Tumblr.

Com a proliferação de ferramentas que pulverizam a publicação e o compartilhamento de conteúdos, creio que o caminho está na transformação dos blogs em “lifestreamings”, agregando tudo que um blogueiro produz nas diversas contas que possui em mídias sociais. Além disso, é fundamental que um blogueiro esteja atento para a necessidade da implementação de um sistema de integração de trackbacks e comentários feitos não apenas no espaço de seu blog, mas também no Twitter, Facebook, Google Reader etc., usando plugins ou serviços de social media comments, como Chat Catcher, Disqus e Tweetbacks. Afinal de contas, blogs são conversações, e elas estão acontecendo a todo instante e nos mais diversos ambientes.

Se até o ‘New York Times’ vislumbrou a necessidade de contratar um editor só para cuidar de mídias sociais, não há justificativa para que blogueiros não atentem para o fato de que blogs, se quiserem manter a relevância conquistada em anos anteriores, precisam estar constantemente atualizados com as novas tecnologias e features que surgem a todo instante.

Nós da Comunicação – Com relação a direitos autorais na web, é certo afirmarmos que vivemos um momento de transição entre uma época em que a indústria ditava o modelo a ser seguido e um cenário em que a gratuidade tomará o lugar de protagonista?
A. I. –
Ainda hesito em afirmar que o modelo gratuito será o hegemônico, exatamente porque vivemos um momento de transição no qual novos formatos e novas experiências estão sendo realizados. Porque o fato é que ainda não foi encontrado um modelo ideal capaz de conciliar a livre disponibilização gratuita de conteúdos com o custeamento dos gastos necessários para a produção de matérias devidamente apuradas e pesquisadas, áudios e vídeos com produção de primeira e, principalmente, a remuneração de todos os profissionais responsáveis pela realização desses trabalhos. Doações via PayPal ou PagSeguro? Branded entertainment? Cobrança de assinaturas? Uso de programas de afiliados? Não vejo ainda uma solução ideal capaz de fazer com que produtores independentes consigam dispensar por completo a dependência do establishment.

Nós da Comunicação – Acompanhamos, nos últimos tempos, a tentativa de governos, no Brasil e no exterior, controlarem por intermédio de legislação específica o conteúdo da internet. Você observa esse movimento como uma real ameaça à liberdade de expressão?
A. I. –
Sim, certamente. Como bem diz aquela música tropicalista, “é preciso estar atento e forte”. Não fosse por protestos, mobilização e movimentação dos internautas brasileiros, por exemplo, o mal redigido projeto original de lei do senador Eduardo Azeredo, que praticamente tornaria a internet ilegal e inviável no País, teria sido aprovado sem maiores contestações.

Nós da Comunicação – Por fim, uma curiosidade antiga: por que pensar enlouquece?
A. I. –
O Akira Kurosawa afirmou, em certa ocasião: “Neste mundo louco, só os loucos são sãos”. E o fato é que pensar demais não faz bem para a sanidade, do mesmo modo que conhecimento em excesso das engrenagens que movem a sociedade é algo um tanto quanto contraproducente para a felicidade pessoal. Não defendo, no entanto, alienação ou ignorância. Não à toa, o nome completo do meu blog é “Pensar enlouquece, pense nisso”. Por mais que enlouqueça, pensar faz bem. Até porque um pouco de insanidade é fundamental para nossa sobrevivência neste mundo abilolado que, por vezes, soa mais inverossímil do que a mais improvável das ficções.

 

Fonte: Nós da Comunicação